A FLORESTA NÃO É SÓ UM LUGAR

Para os povos originários, as florestas, os rios, as montanhas, o sol, a lua, os ventos, os animais, as árvores e tudo o mais que faz parte do ambiente são entes sagrados. Para eles, todas as manifestações da natureza envolvem conhecimentos, sonhos, sentimentos e emoções, com os quais devemos respeitosamente dialogar.
Floresta tropical

Para os povos originários, as florestas, os rios, as montanhas, o sol, a lua, os ventos, os animais, as árvores e tudo o mais que faz parte do ambiente são entes sagrados. Para eles, todas as manifestações da natureza envolvem conhecimentos, sonhos, sentimentos e emoções, com os quais devemos respeitosamente dialogar.

Quem fala sobre isso é o indígena e filósofo Ailton Krenak: “o ser humano precisa abrir-se para outras perspectivas, outras cosmologias: o meu amigo Tika, do povo Yawanawa, fez uma fala tão bonita sobre o povo dele, o seu território e sobre a ideia, por exemplo, da oralidade como veículo de transmissão de saberes. Sobre sua experiência dentro da floresta, disse de uma maneira muito clara que tudo tem a capacidade educativa ou educadora da pessoa e que dentro da floresta não existe alguém que é o professor, porque são tantos, eles estão em tantas representações que a experiência não fica exclusiva entre um ser humano e outro ser humano, ou entre um Yawanawa e outro Yawanawa, mas é uma experiência tão aberta que você aprende com a árvore, com o sonho, com o vento, com a chuva, com os outros animais. Tudo nesse território tem pessoalidade, tudo ali é uma pessoa. Quer dizer, tudo é gente.

Krenak analisa que: “No Ocidente, a ideia de educação começa com um erro fundamental: acreditar que ela é um assunto exclusivamente da espécie do humano. Então, o humano não se educa com um cavalo, com um peixe, ele não se educa com um pássaro cantando ou com um evento qualquer daquilo que a gente chama de natural. Esses eventos estão todos surdos, cegos e mudos. Não têm nada a dizer para o humano. Isso sugere que, na verdade, quem está cego, surdo e mudo é esse humano que perdeu a noção de tudo e que criou uma ideia de si atomizada, um átomo. Então eles se batem por aí, se movem por aí, mas não são capazes de se permitir atravessar-se por outras antologias, por outras perspectivas, por outras poéticas. ”

A Florestania como alternativa à cidadania

Florestania é um termo que surgiu no estado do Acre, no Brasil, na década de 1990, como parte de um movimento político e cultural voltado para a valorização da floresta e dos povos tradicionais que dela dependem. O conceito combina as palavras “floresta” e “cidadania”, propondo uma nova visão de desenvolvimento sustentável que respeite a biodiversidade e a cultura dos habitantes da floresta, como seringueiros, indígenas e ribeirinhos.

O termo ficou conhecido durante os governos de Jorge Viana e Binho Marques no Acre, que impulsionaram políticas públicas focadas na preservação ambiental e no fortalecimento das comunidades locais. A ideia central da florestania é que a cidadania dessas populações inclui o direito à floresta em pé, ao uso sustentável de seus recursos naturais e à manutenção de suas tradições e modo de vida.

Principais pilares da florestania:

  1. Sustentabilidade ambiental – Proteção da floresta e uso racional dos recursos naturais.
  2. Direitos sociais e culturais – Reconhecimento dos direitos das populações tradicionais.
  3. Desenvolvimento sustentável – Fomento de atividades econômicas que preservem o meio ambiente, como o extrativismo, a agricultura sustentável e o ecoturismo.

Esse conceito inspirou políticas que se tornaram referência nacional e internacional na área de sustentabilidade e conservação da Amazônia.

Ailton Krenak continua: Quando falo de instituir essa experiência da florestania, estou opondo isso à banalização da cidadania pelo mercado. Se o mercado banalizou a experiência da cidadania, nós estamos com gesto, com ação ativa e esperançosa de criar a possibilidade da florestania, em que o humano sai um pouquinho de cena e deixa outros mestres falarem. Que a gente aprenda a ouvir a montanha, o rio. Os rios estão secando, será que eles não estão dizendo nada pra gente? Eles estão saindo de cena, será que não estão dizendo nada pra gente? As abelhas, a floresta, a lista de espécies em extinção não diz nada para esse humano que deu metástase? “(*)

A morte do Rio Doce. rio Sagrado para os Krenak.

O que é Cidadania?

A origem da palavra cidadania vem do latim civitas, que quer dizer cidade. Na Grécia antiga, considerava-se cidadão aquele nascido em terras gregas. Em Roma a palavra cidadania era usada para indicar a situação política de uma pessoa e os direitos que essa pessoa tinha ou podia exercer.

Juridicamente, cidadão é o indivíduo no gozo dos direitos civis e políticos de um Estado. Em um conceito mais amplo, cidadania quer dizer a qualidade de ser cidadão, e consequentemente sujeito de direitos e deveres.

A relação do cidadão com o Estado é dúplice: de um lado, os cidadãos participam da fundação do Estado, e, portanto, estão sujeitos ao pacto que o criou, no nosso caso a Constituição Federal de 1988. Portanto, sendo o Estado dos próprios cidadãos, os mesmos têm o dever de zelar pelo bem público e participar, seja através do voto, seja através de outros meios, formais e informais, do acompanhamento e fiscalização da atuação estatal.

Ao mesmo tempo, o agente estatal, como cidadãos investidos de funções públicas, tem o dever de atuar com base nos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade e publicidade, prestando contas de todos os seus atos. Uma relação harmoniosa entre as expectativas dos cidadãos e a atuação estatal é o ideal a ser alcançado por qualquer sociedade.

Mas nem tudo depende apenas do Estado. O conceito de cidadania vai muito além, pois ser cidadão significa também tomar parte da vida em sociedade, tendo uma participação ativa no que diz respeito aos problemas da comunidade. Segundo Dalmo de Abreu Dallari: “A cidadania expressa um conjunto de direitos que dá à pessoa a possibilidade de participar ativamente da vida e do governo de seu povo”.

Colocar o bem comum em primeiro lugar e atuar sempre que possível para promovê-lo é dever de todo cidadão responsável. A cidadania deve ser entendida, nesse sentido, como processo contínuo, uma construção coletiva que almeja a realização gradativa dos Direitos Humanos e de uma sociedade mais justa e solidária. (**)

Ailton Krenak continua sua análise: “Florestania seria o devir-floresta desse lugar-cidade onde as pessoas se cansaram de correr atrás desse status de cidadania, onde sempre foram repelidas. Bilhões de pessoas nunca vão alcançar esse lugar cidadão, então, ele é uma mentira. A gente deveria questionar isso com honestidade e parar de papo-furado com essa história de educação cidadã, porque ela é para meia dúzia, ela não é para todo mundo. ” (*)

A Biofilia propõe uma conexão intrínseca entre o homem e a natureza que nos faz apreciar ambientes preservados e elementos naturais. Uma série de evidências sustenta essa teoria. Doentes internados recuperam-se mais rápido em quartos com vista para um jardim do que nos com vista para a cidade. Os sintomas de ansiedade, depressão, diabetes e hipertensão diminuem em pessoas expostas à natureza. Eventos traumáticos, tal qual a pandemia de COVID, elevaram a procura por áreas naturais. No Japão e na Finlândia, os “banhos de floresta” são recomendações médicas. Próximo a Brasília há um espaço dedicado ao banho de Cerrado no Sítio das Neves. O contato com a natureza nos faz bem física e mentalmente. (***)

Realize sua experiência de Florestania.

Floresta urbana em área recuperada

Escolha uma floresta de qualquer tamanho. Feche os olhos, respire fundo, ative todos seus sentidos. Comece pelos cheiros da floresta. Escute sua respiração, atente para os sons, continue de olhos fechados, pois a visão, é muito poderosa e se sobressai aos demais sentidos. Sinta a temperatura, o sol e os ventos através de sua pele. Procure as sensações que tudo isso junto lhe causam.

Peça licença à floresta e a seus entes para adentrá-la.

Abra os olhos e sinta a floresta interagindo com seu ser através dos sentidos aguçados. Deixe-se levar pelo simples caminhar e observar tudo o que acontece ao seu redor.  

Dispa-se dos pré-conceitos. Liberte-se das amarras e dos condicionamentos. Caminhe passo a passo, sem pressa, sem tempo. Apenas contemple. Sinta as energias que emanam da natureza e aceite o convite para trocar com ela . Emane paz, solidariedade e gratidão: a natureza retribuirá.

Dialogue com os entes e quando perceber você estará experimentando uma dimensão inédita do seu ser na relação com a floresta: chame isso de Florestania.

Depois, se quiser compartilhar, comente aqui como foi sua vivência, isso poderá ajudar outros seres a “florestanar”.

 (*) FONTE: https://revistaeducacao.com.br/2023/11/24/ailton-krenak-florestania/

(**) FONTE: https://www.justica.pr.gov.br/Pagina/O-que-e-Cidadania

(***) FONTE: https://oeco.org.br/analises/turismo-de-natureza-no-cerrado-uma-oportunidade/

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Compartilhe:

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp
Email

Newsletter

Mantenha-se informado sobre sustentabilidade e receba conteúdos inspiradores diretamente no seu e-mail

Cursos livres

Transforme sua visão sobre sustentabilidade! Conheça nossa Escola Virtual e explore cursos inovadores que ajudam a construir um futuro mais verde e consciente.

Categorias
plugins premium WordPress