
Investigações recentes expõem como grandes petrolíferas enganaram o público sobre a reciclagem de plásticos, contribuindo para uma crise ambiental global, enquanto consumidores são expostos a ingestão de quantidades alarmantes de resíduos plásticos.
A revelação de uma campanha sistemática de desinformação, conduzida por corporações do setor de combustíveis fósseis e petroquímica, foi identificada como elemento central na crise atual de poluição por plásticos.
Durante anos a fio, essas corporações mantiveram a narrativa de que a reciclagem era a solução ideal para o problema dos resíduos plásticos, mesmo cientes de que, na prática, a reciclagem de plásticos não se sustentava econômica ou tecnicamente em larga escala.
O Center for Climate Integrity (CCI) divulgou um relatório inovador (*), trazendo provas nunca antes vistas que podem pavimentar o caminho para futuras ações legais contra as gigantes do petróleo e a indústria plástica por enganarem o público quanto à reciclagem de plásticos.
Segundo levantamento do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) “ O plástico representa 85% dos resíduos que chegam aos oceanos e que os volumes de plástico que fluem para o mar deverão quase triplicar até 2040, ameaçando todas as espécies que dependem do ambiente marinho para viver, desde plâncton e moluscos até aves, tartarugas e mamíferos. Corais, mangues e ervas marinhas também poderão ser sufocados por detritos plásticos que os impedem de receber oxigênio e luz. Outro tema emergente é a poluição por microplásticos, que afetam o solo, as águas e o ar. E se alojam insidiosamente nos órgãos humanos.” (leia também: Há uma “ilha” flutuante, maior do que o Estado do Amazonas, no meio do Oceano Pacífico

Mas aos poucos, a ciência, associada à Biotecnologia, vem conseguindo transformar a grande mentira em verdade no que tange à reciclagem de alguns tipos de resíduos plásticos: pesquisadores brasileiros encontraram uma bactéria capaz de transformar lixo plástico em bioplástico.
Denominado BR4, o microrganismo decompõe o PET, produzindo PHB – um biopolímero(1) de alta qualidade que pode ser empregado na fabricação de embalagens sustentáveis e em aplicações biomédicas.
A pesquisa obteve resultados promissores na utilização de microrganismos para a degradação de plásticos e a produção de bioplástico, avançando também no entendimento de enzimas e vias bioquímicas envolvidas no processo.
Depois da crise climática, a poluição por plásticos tornou-se um dos problemas ambientais mais agudos. Anualmente, cerca de 350 milhões de toneladas de plástico tornam-se resíduos. Desse total, aproximadamente 40% correspondem a embalagens. Esses dados foram levantados pelo banco Credit Suisse e publicados no Brasil pela revista Exame. Segundo a mesma fonte, dos resíduos plásticos gerados, 46% são destinados a aterros sanitários, 17% são incinerados e apenas 15% são reciclados.
Além de ser quantitativamente pouco relevante, a reciclagem, tal como vem sendo praticada, não constitui uma solução real para o problema. “Ela não resolve porque, em geral, produz plásticos com propriedades e aplicações inferiores, que também serão descartados ao final de sua utilização”, argumenta o pesquisador Fabio Squina, professor da Universidade de Sorocaba (Uniso) e coordenador da pesquisa, que envolveu colaboradores das universidades Estadual de Campinas (Unicamp) e Federal do ABC (UFABC).
Comunidades microbianas
A partir de amostras de solo contaminado por plásticos, os cientistas desenvolveram comunidades microbianas capazes de degradar materiais como polietileno (PE) e tereftalato de polietileno (PET). Um dos destaques foi o desenvolvimento de uma linhagem de Pseudomonas sp, nomeada BR4, que não apenas decompõe o PET, mas também produz polihidroxibutirato (PHB), um bioplástico de alta qualidade. Enriquecido com unidades de hidroxivalerato (HV), esse material apresenta maior flexibilidade e resistência em comparação ao PHB puro, podendo ser utilizado para a fabricação de embalagens sustentáveis e em aplicações biomédicas.
“Para chegar a esse e outros resultados, nós sequenciamos os genomas de 80 bactérias presentes nas comunidades microbianas, identificando espécies já descritas na literatura e também novas, associadas à degradação de polímeros plásticos. E avaliamos o potencial genético de cada uma em codificar enzimas envolvidas na degradação de polímeros”, conta Squina.
Além disso, o estudo mapeou transportadores e vias metabólicas envolvidos na degradação e assimilação de polímeros plásticos. “As comunidades microbianas apresentaram características notáveis, degradando polímeros com base em interações cooperativas entre bactérias e vias bioquímicas especializadas”, comenta o pesquisador.
Apoiado pela FAPESP por meio de 13 projetos, a pesquisa evidenciou o potencial de abordagens de investigação científica que estudam um organismo, tecido, célula ou molécula em escala global e de forma integrada. Elas abrangem diferentes níveis de informação biológica, desde o genoma (conjunto completo de genes) até o metaboloma (conjunto completo de metabólitos) em comunidades microbianas como uma plataforma promissora para a descoberta de enzimas e microrganismos, aplicados à conversão de plásticos de origem fóssil em biopolímeros.
O trabalho também sugere que plataformas como as utilizadas podem ser empregadas em outros tipos de plásticos, ampliando o impacto da tecnologia. “Estamos explorando formas de aprimorar bioquimicamente enzimas e microrganismos para degradar plásticos mais resistentes que o PET”, informa Squina.
E acrescenta que, “além de produzir bioplásticos, os microrganismos podem ser aproveitados para a produção de outros compostos químicos com aplicações nas áreas de agricultura, cosméticos e indústria alimentícia”. Ressalva, contudo, que mais pesquisas são necessárias para validar essas descobertas em condições ambientais reais e para otimizar o desempenho dos microrganismos.
Enquanto os governos ainda fazem pouco para deter e reverter o processo, a exemplo do que também ocorre em relação à crise climática, a comunidade científica tem-se empenhado em encontrar soluções. O estudo em pauta é uma contribuição nesse sentido.
- Biopolímero = Biopolímeros são polímeros, ou seja, macromoléculas orgânicas de grande peso molecular, que são produzidos por organismos vivos ou obtidos a partir de matérias-primas renováveis. São exemplos de biopolímeros: celulose, amido, proteínas, quitina, ácidos nucléicos (ADN e ARN). Eles se destacam pela sua biodegradabilidade e potencial para substituir polímeros sintéticos tradicionais derivados de petróleo.
(*) Relatório do Center for Climate Integrity (CCI): “A Fraude da Reciclagem de Plástico: Como as Grandes Petrolíferas e a indústria de plásticos enganaram o público por décadas e causaram a crise de resíduos plásticos”
(**) leia também “Há uma “ilha” flutuante, maior do que o Estado do Amazonas, no meio do Oceano Pacífico “
O artigo Plastic-degrading microbial communities reveal novel microorganisms, pathways, and biocatalysts for polymer degradation and bioplastic production pode ser acessado em: www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0048969724050253?via%3Dihub.